A face dura e cruel da guerra em O Rei, de David Michôd
Reassistir O Rei, filme de 2019 dirigido por David Michôd, me fez perceber detalhes que na época haviam passado batido. Quando falamos sobre batalhas na Idade Média, imaginamos um conflito épico, nutrido pelo que vemos em filmes e séries. Porém, na verdade essas batalhas ficam aquém do nosso imaginário, podemos dizer que são mais parecidas com Kingdom Come: Deliverance (o que faz o jogo ser perfeito) e menos com A Batalha dos Cinco Exércitos (que não me canso de assistir).
O Rei segue momentos decisivos da vida do Rei Henrique V, desde momentos antes de sua ascensão até a sua primeira batalha decisiva, a batalha de Azincourt, ou Agincourt. Nela, o Rei Henrique surpreende o exército francês e sai vitorioso em um dos confrontos mais decisivos na famosa Guerra dos 100 Anos. Não quero fazer uma análise do filme, mas recomendo que assistam, caso ainda não tenham feito, só pretendo ressaltar alguns pontos que achei interessante e que me trouxeram algumas reflexões sobre o período.
A BATALHA DE UM CONTRA UM
A primeira batalha já levanta um questionamento importante. Quando o irmão mais novo vai para a batalha que o consolidaria rei, Henrique chega e desafia o adversário, até então rei da Dinamarca, para uma batalha homem a homem, com o intuito de livrar o exército de uma luta sangrenta e desnecessária. Os dois cavaleiros estão completamente trajados, com armaduras de aço da cabeça aos pés. O que vemos é uma luta estranha, porém mais próxima do real. Enquanto no começo os guerreiros se analisam e usam a espada para manter distância um do outro, no decorrer do tempo a luta vira uma briga, com os dois ofegantes devido ao peso que carregam e a incapacidade de respirar em seus capacetes fechados. Henrique consegue vencer jogando o adversário no chão e usando seu punhal, uma maneira improvável para o que pode ter sido descrito como uma luta épica em tempos passados. Na verdade, pode mesmo ter sido épica para os parâmetros da época.
No fim, Henrique vence a justa, ainda assim seu irmão decide ir a batalha, onde morre e põem fim ao que poderia ser o seu reinado.
UMA BATALHA DE VERDADE
Já na batalha de Agincourt, a cena em que o Rei Henrique chega em meio às árvores e entrega sua espada para um de seus homens diz muito a respeito do que realmente era necessário em uma batalha. Por um tempo ele observa esperando sua vez de atacar, enquanto isso, seus soldados estão embolados com os adversários no campo, vemos seu amigo e responsável pelo primeiro ataque sendo esmagado entre soldados inimigos e aliados, mostrando a dificuldade que é respirar em meio ao pandemônio. Isso nos leva a uma questão interessante: quantos soldados morreram pisoteados e esmagados antes mesmo de brandir sua espada? Ou ainda, será que as flechas inglesas, que os fizeram famosos na era medieval, atingiam apenas os adversários?
Mas então chega a vez de Henrique empreender a segunda carga inglesa contra os franceses, e foi nesse momento que pensei em escrever sobre isso. Lembrem-se que ele entregou a espada a um de seus aliados, talvez um escudeiro, porém no momento do ataque ele opta por uma espécie de martelo de guerra, não muito grande, mas essencial para romper as linhas inimigas. Esse martelo consiste em um lado achatado, pois as armaduras de aço e as cotas de malha impediam a perfuração de uma espada, já o martelo quebrava ossos, incapacitando o adversário. O outro lado é como um gancho, que pode ser usado para puxar o inimigo, onde indefeso seria um alvo fácil. Um martelo de guerra pequeno se mostra muito mais eficaz em uma batalha entre exércitos, do que uma espada longa que geraria diversos problemas pela falta de espaço.
CONCLUSÃO
Por fim, uma batalha medieval de verdade está longe do que é mostrado nos filmes de ficção fantástica. Mas se fossemos retratar em filmes a verdadeira face de uma guerra na idade média o que teríamos eram dias de um cerco que pareceria não ter mais fim é horas e horas de exércitos parados um em frente ao outro, analisando e procurando uma brecha para iniciar o ataque.
Essa ilusão criada em torno da idade média nos serve muito bem como entretenimento e rende um número gigantesco de filmes, séries, livros, animes… é um material tão extenso que horas ou outra até quem não gosta acaba se deparando com ele, enquanto nós, fãs da ficção fantástica, queremos cada vez mais, seja um cavaleiro reluzente romantizado, ou um sujeito feio e barbudo, bêbado, quebrando ossos com um martelo de guerra nas mãos.



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